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DESVIOS COM RESPEITO AO OBJETO SEXUAL A teoria popular sobre a pulsão sexual tem seu mais belo equivalente na fábula poética da divisão do ser humano em duas metades – homem e mulher – que aspiram a unir-se de novo no amor. Por isso causa grande surpresa tomar conhecimento de que há homens cujo objeto sexual não é a mulher, mas o homem, e vice-versa. Diz-se dessas pessoas que são “ de sexo contrário”, ou melhor, “invertidos. INVERSÃO * Podem existir invertidos absolutos , ou seja, seu objeto sexual só pode ser do mesmo sexo, enquanto o sexo oposto nunca é para eles objeto de anseio sexual. * Podem existir invertidos anfígenos (hermafroditas sexuais), ou seja, seu objeto sexual tanto pode pertencer ao mesmo sexo quanto ao outro, faltando à inversão o caráter de exclusividade. * Podem ser invertidos ocasionais , ou seja, em certas condições externas, dentre as quais se destacam a incessabilidade do objeto sexual normal e a imitação. Alguns aceitam a inversão como algo natural, tal como os normais aceitam orientação de sua libido, e defendem energicamente sua igualdade de direitos com os normais. Outros, porém, rebelam-se contra o fato de sua inversão e a sentem como uma compulsão patológica. O traço da inversão pode vir de longa data no indivíduo, só se ter feito notar em determinada época antes ou depois da puberdade, ou ainda, pode até exteriorizar-se pela primeira vez em época posterior da vida, após um longo período de atividade sexual normal. Interessante são os casos em que a libido se altera no sentido da inversão depois de se ter uma experiência penosa com o objeto sexual normal. A primeira apreciação da inversão consistiu em concebê-la como um sinal inato de degeneração nervosa, e estava em consonância com o fato de os observadores médicos terem deparado com ela pela primeira vez em doentes nervosos ou pessoas que davam a impressão de sê-lo. ( Degeneração Tornou-se costume imputar a degeneração todos os tipos de manifestação patológica que não sejam de origem diretamente traumática ou infecciosos. Parece mais oportuno falar em degeneração apenas quando: houver uma conjugação de muitos desvios graves em relação à norma; a capacidade de funcionamento e de sobrevivência parecer em geral gravemente prejudicada Vários fatores permitem ver que os invertidos não são degenerados nesse sentido legítimo da palavra pois encontra-se a inversão em pessoas que não exibem nenhum outro desvio grave da norma e do mesmo modo, encontramo-la em pessoas cuja eficiência não está prejudicada e que inclusive se destacam por um desenvolvimento intelectual e uma cultura ética particularmente elevados. ( Caráter inato O caráter inato não é alegado no tocante à primeira e mais extrema classe dos invertidos. Já n terceira classe dos invertidos, os ocasionais, dificilmente se compatibiliza com a concepção de um caráter inato. A inversão teria esse caráter numa série de casos, enquanto noutros poderia Ter-se originado de outra maneira. O oposto disso é a concepção alternativa de que a inversão é um caráter adquirido da pulsão sexual que se apóia nas seguintes considerações: * na vida de muitos invertidos (mesmo absolutos) pode-se demonstrar a influência de uma impressão sexual prematura cuja conseqüência duradoura é representada pela inclinação homossexual; * as influências favorecedores e inibidoras que levaram, em época mais prematura ou mais tardia, à fixação da inversão seriam relacionamentos exclusivos com o mesmo sexo, companheirismo na guerra, detenção em presídios, os riscos da relação heterossexual, celibato, fraqueza sexual, etc. Mas a aparente certeza assim adquirida chega ao fim através da observação contrária de que muitas pessoas ficam sujeitas às mesmas influências sexuais (inclusive na meninice: sedução, masturbação mútua), sem por isso se tornarem invertidas ou assim continuarem permanentemente. Somos portanto impelidos à suposição de que a alternativa inato/adquirido é incompleta. ( O recurso à bissexualidade A ciência conhece casos em que os caracteres sexuais parecem confusos e é portanto difícil determinar o sexo, antes de mais nada no campo anatômico. Não é possível imaginar relações tão estreitas entre o suposto hibridismo psiquíco e o hibridismo anatômico comprovável. O que amiúde se constata nos invertidos é uma redução generalizada da pulsão sexual e uma ligeira atrofia anatômica dos órgãos. Em geral os caracteres sexuais secundários e terciários de um sexo aparecem com muitíssima mais freqüência no outro; são, portanto, indícios de hermafroditismo, mas sem por isso revela-se uma mudança do objeto sexual no sentido da inversão. Portanto, a substituição do problema psicológico pelo anatômico é tão inútil quanto injustificada. ( Objeto sexual dos invertidos A teoria do hermafroditismo psíquico pressupõe que o objeto sexual dos invertidos seja o oposto do normal. O homem invertido sucumbira, como a mulher, ao encanto proveniente dos atributos masculinos do corpo e da alma; sentir-se-ia como uma mulher e buscaria o homem. Uma grande parcela dos invertidos masculinos preserva o caráter psíquico da virilidade, traz relativamente poucos caracteres secundários do sexo oposto e, com efeito, busca em seu objeto sexual traços psíquicos femininos. O que inflamava o amor do homem não era o caráter masculino do efebo, mas sua semelhança física com a mulher, bem como seus atributos anímicos femininos: a timidez, o recato e a necessidade de ensinamentos e assistência. Em todos os casos investigados, constatou-se que os futuros invertidos atravessaram, nos primeiros anos de sua infância, uma fase muito intensa, embora muito breve, de fixação na mulher (em geral, a mãe), após cuja superação identificaram-se com a mulher e tomaram a si mesmos como objeto sexual, ou seja, a partir do narcisismo buscaram homens jovens e parecidos com sua própria pessoa, a quem eles devem amar tal como a mãe os amou. Deve-se levar em conta que a investigação psicanalítica opõe-se com toda a firmeza à tentativa de separar os homossexuais dos outros seres humanos como um grupo de índole singular. Todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha de objeto homossexual e de fato a consumaram no inconsciente. Nesse sentido psicanalítico, portanto, o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher é também um problema que exige esclarecimento, e não uma evidência indiscutível que se possa atribuir a uma atração de base química. A conduta sexual definitiva só se decide depois da puberdade e resulta de uma série de fatores ainda inabarcáveis, de natureza em parte constitucional, bem parte acidental. Alguns desses fatores podem certamente incidir com força tão desmedida a ponto de influenciarem o resultado em sua direção. A vigência da escolha narcísica de objeto e a retenção da importância erótica da zona anal figuram como suas características mais essenciais. Entre as influências acidentais exercidas sobre a escolha do objeto, é digna de nota a frustração (a intimidação sexual precoce), e observamos também que a presença de ambos os pais desempenha um papel importante. A falta de um pai forte na infância não raro favorece a inversão. S. Ferenczi, em 1914, censura acertadamente que se confundam sob o nome de “homossexualismo” (que ele propõe substituir pela designação mais adequada de “homoerotismo”). Ferenczi reclama uma distinção clara pelo menos entre dois tipos: os “homoeróticos quanto ao sujeito”, que se sentem mulheres e se comportam como tal, e os “homoeróticos” quanto ao objeto “, que são completamente masculinos e apenas trocaram o objeto feminino por um objeto do mesmo sexo. Os primeiros são por ele reconhecidos como verdadeiros “intermediários sexuais” e os últimos ele designa, de maneira menos feliz, como neuróticos obsessivos. Somente no caso dos homoeróticos quanto ao objeto haveria uma luta contra a tendência à inversão, bem como uma possibilidade de influência psíquica (pela terapia). Em determinado caso conseguiu-se essa transformação sexual num homem que perdera seus testículos por causa de uma tuberculose. Na vida amorosa ele se comportava como homossexual passivo, feminino, e exibia caracteres sexuais secundários marcadamente femininos (ausência de pêlos e barba, acumulação de gordura nas mamas e nos quadris). Após o implante de um testículo retido proveniente de outro homem, começou a comportar-se com masculinidade e a orientar sua libido para as mulheres de maneira normal. Ao mesmo tempo, desaparecem os caracteres somáticos femininos. ( Alvo sexual dos invertidos Nos homens, a relação sexual per anum não coincide em absoluto com a inversão; a masturbação é com igual freqüência seu alvo exclusivo, e as restrições ao alvo sexual – a ponto de ele ser um mero extravasamento de emoção – são aqui mais comuns do que no amor heterossexual. Também entre as mulheres invertidas são múltiplos os alvos sexuais parecendo privilegiado entre elas o contato com a mucosa bucal. ANIMAIS E PESSOAS SEXUALMENTE IMATURAS COMO OBJETOS SEXUAIS Os casos em que se escolhem pessoas sexualmente imaturas (crianças) como objetos sexuais são desde logo encarados como aberrações esporádicas. Em geral, passa a desempenhar esse papel quando um indivíduo covarde ou impotente presta-se a usá-las como substituto, ou quando uma pulsão urgente (impreterível) não pode apropriar-se, no momento, de nenhum objeto mais adequado. Uma observação similar é válida quanto à relação sexual com animais, que não é nada rara, sobretudo entre os camponeses, e onde a atração sexual parece ultrapassar a barreira da espécie. Essa curiosíssima relação entre as variações sexuais e a escala que vai da saúde à perturbação mental dá o que pensar. Quem é mentalmente anormal em algum outro aspecto, seja em termos sociais ou éticos, habitualmente também o é em sua vida sexual. Mas muitos são os anormais na vida sexual que, em todos os outros pontos, correspondem à média, e que passaram pessoalmente pelo desenvolvimento cultural humano, cujo ponto mais fraco continua a ser a sexualidade. 1.2. DESVIOS COM RESPEITO AO ALVO SEXUAL Considera-se como alvo sexual normal a união dos genitais no ato designado como coito, que leva à descarga da tensão sexual e à extinção temporária da pulsão sexual. Todavia, existem as perversões até no processo sexual mais normal que seriam certas relações intermediárias com o objeto sexual (a caminho do coito), tais como apalpá-lo e contemplá-lo reconhecidas como alvos sexuais preliminares. Essas atividades, de um lado, trazem prazer em si mesmas, e de outro, intensificam a excitação, que deve perdurar até que se alcance o alvo sexual definitivo. As perversões são ou transgressões anatômicas quanto às regiões do corpo destinadas à união sexual, ou demoras nas relações intermediárias com o objeto sexual, que normalmente seriam atravessadas com rapidez a caminho do alvo sexual. A) TRANSGRESSÕES ANATÔMICAS ( Supervalorização do objeto sexual O objeto sexual, enquanto alvo desejado da pulsão sexual, em rarísssimos casos restringe-se a sua genitália, mas sim propaga-se por todo o corpo. Essa supervalorização sexual que não suporta bem a restrição do alvo sexual à união dos órgãos genitais propriamente ditos e que contribui para elevar as atividades ligadas a outras partes do corpo à condição de alvos sexuais devido a necessidade de variação do ser humano. ( Uso sexual da mucosa dos lábios e da boca. É considerado como perversão quando os lábios (língua) de uma pessoa entram em contato com a genitália de outra. Os primórdios da humanidade, cede nisso a um claro sentimento de asco que o resguarda de aceitar tal alvo sexual. Mas os limites desse asco são muitas vezes, puramente convencionais; aquele que beija com ardor os lábios de uma bela jovem talvez usasse com asco a escova de dentes dela, embora não tenha nenhuma razão para supor que sua própria cavidade bucal seja mais limpa que a da moça. O fator do asco pode ser vencido pela libido. A força da pulsão sexual gosta de se exercer na dominação desse asco. ( Uso sexual do orifício anal A fundamentação desse asco no fato de tal parte do corpo servir à excreção e entrar em contato com o asqueroso em si – os excrementos – não é muito convincente do que a razão fornecida pelas moças histéricas para explicar seu asco ante o órgão genital masculino: que ele serve à micção. Tampouco a predileção por ela é característica da sensibilidade dos invertidos. A masturbação recíproca é o alvo sexual mais facilmente encontrado na relação sexual dos invertidos. ( Substituição imprópria do objeto sexual – fetichismo O substituto do objeto sexual geralmente é uma parte do corpo (os pés, os cabelos) muito pouco apropriada para fins sexuais, ou então um objeto inanimado que mantém uma relação demonstrável com a pessoa a quem substitui, de preferência com a sexualidade dela (um artigo de vestuário, uma peça íntima). Comparou-se esse substituto, não injustificadamente, com o fetiche em que o selvagem vê seu deus incorporado. O ponto de ligação com o normal é proporcionado pela supervalorização psicologicamente necessária do objeto sexual, que se propaga inevitavelmente por tudo o que está associativamente ligado ao objeto. Por isso certo grau desse fetichismo costuma ser próprio do amor normal, sobretudo nos estágios de enamoramento em que o alvo sexual normal é inatingível ou sua satisfação parece impedida. Em outros casos, essa substituição pode ser uma conexão simbólica de pensamentos que, na maioria das vezes, não é consciente para a pessoa e independentes das experiências sexuais da infância. A psicanálise explica a escolha do fetiche de um prazer olfativo perdido através do recalcamento. Os pés e os cabelos são objetos de odor acentuado, elevados à condição de fetiche após a renúncia à sensação olfativa tornada desprazerosa. Assim, na perversão correspondente ao fetichismo do pé, somente os pés sujos e malcheirosos são objetos sexuais. Outra contribuição para o esclarecimento da preferência fetichista pelos pés resulta das teorias sexuais infantis: o pé substitui o pênis da mulher, cuja ausência é profundamente sentida. Em muitos casos de fetichismo dos pés pôde-se mostrar que a pulsão de ver (escopofílica), originalmente voltada para os genitais e querendo chegar a seu objeto de baixo para cima, foi detida em seu trajeto pela proibição e pelo recalcamento, e por isso reteve como fetiches os pés ou os sapatos. FIXAÇÕES DE ALVO SEXUAIS PROVISÓRIOS ( O tocar e o olhar Uma certa dose de uso do tato, ao menos par a os seres humanos é indispensável para que se atinja o alvo sexual normal. Portanto, demorar-se no tocar, desde que o ato sexual seja levado adiante, dificilmente pode contar entre as perversões. A progressiva ocultação do corpo advinda com a civilização mantém desperta a curiosidade sexual, que ambiciona completar o objeto sexual através da revelação das partes ocultas. O prazer de ver (escopofilia) transforma-se em perversão quando se restringe exclusivamente à genitália, quando se liga à superação do asco (o voyeur – expectador das funções excretórias) ou quando suplanta o alvo sexual normal, em vez de ser preparatório para ele. Este último é marcantemente o caso dos exibicionistas, que pode ser deduzido após diversas análises, exibem seus genitais para conseguir ver, em contrapartida, a genitália do outro. A força que se opõe ao prazer de ver, mas pode eventualmente ser superada por ele, como foi visto antes no caso do asco, é a vergonha. ( Sadismo e Masoquismo Também são designados pelo nome de algolagnia e se destacam pelo prazer na dor. O sadismo corresponderia a um componente agressivo autonomizado e exagerado da pulsão sexual, movido por deslocamento para o lugar preponderante. O conceito de sadismo oscila, na linguagem corriqueira, desde uma atitude meramente ativa ou mesmo violenta para com o objeto sexual até uma satisfação exclusivamente condicionada pela sujeição e maus tratos a ele infligidos. Num sentido estrito, somente este último caso extremo merece o nome de perversão. O masoquismo enquanto perversão parece distanciar-se mais do alvo sexual normal. É freqüente poder-se reconhecer que o masoquismo não é outra coisa senão uma continuação do sadismo. Segundo alguns autores, essa agressão mesclada à pulsão sexual é, na realidade, um resíduo de desejos canibalísticos e, portanto, uma co-participação do aparelho de dominação. Afirmou-se também que toda dor contém em si mesma a possibilidade de uma sensação prazerosa porém, o esclarecimento dessa perversão de modo algum tem sido satisfatória. Suas formas ativa e passiva costumam encontrar-se juntas numa mesma pessoa. O sádico é sempre e ao mesmo tempo um masoquista, ainda que o aspecto ativo ou passivo da perversão possa ter-se desenvolvido nele com maior intensidade e represente sua atividade sexual predominante. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE AS PERVERSÕES ( Variação e doença A maioria das transgressões, no mínimo as menos graves, sã um componente que raramente falta na vida sexual das pessoas sadias e que é por elas julgado como qualquer outra intimidade. Quando as circunstâncias são favoráveis, as pessoas normais podem substituir durante um bom tempo o alvo sexual normal por uma dessas perversões, ou arranjar-lhe um lugar ao lado dele. As perversões são tidas como patológicas, sobretudo nos casos em que a pulsão sexual realiza obras assombrosas (lamber excrementos, abusar de cadáveres) na superação das resistências (vergonha, asco, horror ou dor). Nem mesmo nesses casos, porém, pode-se ter uma expectativa certeira de que em seus autores se revelem regularmente pessoas com outras anormalidades graves ou doentes mentais. A anormalidade manifesta nas outras relações da vida costuma mostrar invariavelmente um fundo de conduta sexual anormal. Quando há nela as características de exclusividade e fixação, na maioria das vezes é julgada como um sintoma patológico. A PULSÃO SEXUAL DOS NEURÓTICOS O caráter histérico permite identificar um grau de recalcamento sexual que ultrapassa a medida normal; uma intensificação da resistência à pulsão sexual (do estudo das perversões resultou-se a visão de que a pulsão sexual tem de lutar contra certas forças anímicas como a vergonha, o asco e a moralidade); e uma fuga como que instintiva a qualquer ocupação do intelecto com o problema do sexo, que tem como conseqüência, nos casos mais acentuados, a manutenção de uma completa ignorância sexual, mesmo depois de alcançado o período de maturidade sexual. Solucionar a enigmática contradição da histeria é uma necessidade sexual desmedida e uma excessiva renúncia ao sexual. Entre a premência da pulsão e o antagonismo da renúncia ao sexual situa-se a saída para a doença, que não soluciona o conflito, mas procura escapar a ele pela transformação das aspirações libidinosas em sintomas. ( Neurose e perversão Os sintomas da neurose se formam, em parte, a expensas da sexualidade anormal; a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão. Na vida anímica de todos os neuróticos, sem exceção, encontram-se moções de inversão, de fixação da libido em pessoas do mesmo sexo. A tendência inconsciente para a inversão nunca está ausente. No inconsciente dos psiconeuróticos é possível demonstrar como formadoras do sintoma, todas as tendências à transgressão anatômica, encontrando-se entre elas com particular freqüência e intensidade as que reivindicam para as mucosas da boca e do ânus o papel dos genitais. Um papel muito destacado entre os formadores de sintomas das psiconeuroses é desempenhado pelas pulsões parciais – a pulsão do prazer de ver e do exibicionismo, e a pulsão de crueldade em suas formas ativa e passiva. É também por intermédio dessa ligação da libido com a crueldade que se dá a transformação do amor em ódio, das moções afetuosas em moções hostis, que é característica de um grande número de casos de neurose e até, ao que parece, da paranóia em geral. Toda perversão “ativa”, portanto, é acompanhada por sua contrapartida passiva; quem é exibicionista no inconsciente é também, ao mesmo tempo, voyeur; quem sofre as conseqüências das moções sádicas recalcadas encontra outro reforço para seu sintoma nas fontes da tendência masoquista. Nos quadros patológicos, uma ou outra das inclinações opostas desempenha o papel preponderante. Na maioria das vezes encontra-se um grande número dessas perversões e, em geral, vestígios de todas. PULSÕES PARCIAS E ZONAS ERÓGENAS Por “pulsão” pode-se entender, a princípio, apenas o representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente, para diferenciá-la do “estímulo”, que é produzido por excitações isoladas vindas de fora. Pulsão, portanto, é um dos conceitos da delimitação entre o anímico e o físico. Os órgãos do corpo fornecem dois tipos de excitação. A uma dessas classes de excitação designamos como a que é especificamente sexual, e referimo-nos ao órgão em causa como a “zona erógena” da pulsão parcial que parte dele. Nas inclinações perversas que reivindicam para a cavidade bucal e para o orifício anal um sentido sexual, o papel das zonas erógenas é imediatamente perceptível. O sentido das zonas erógenas como aparelhos acessórios e substitutos da genitália evidencia-se com maior clareza, dentre as psiconeuroses, na histeria. 1.6 ESCLARECIMENTOS SOBRE A APARENTE PREPONDERÂNCIA DA SEXUALIDADE PERVERSA NAS PSICONEUROSES A disposição constitucional desse doentes contém, além de um grau desmedido de recalcamento sexual e de uma intensidade hiperpotente da pulsão sexual, uma tendência incomum à perversão no sentido mais lato. Na maioria dos psiconeuróticos, a doença só aparece depois da puberdade. É contra esta que se orienta de modo preponderante o recalcamento. Ou então a doença se instaura mais tardiamente, quando a libido fica privada de satisfação pelas vias normais. O recalcamento sexual, enquanto fator interno, com fatores externos que, como a restrição da liberdade, a inacessibilidade do objeto sexual normal, os riscos do ato sexual normal, etc., permitem que surjam perversões em indivíduos que, de outro modo talvez permanecessem normais. Nesses aspecto, os diversos casos de neurose podem portar-se de maneira diferente: num, prepondera a força inata da tendência à perversão, noutro, o aumento colateral dessa mesma tendência por ser a libido desviada do alvo e do objeto sexuais normais. 1.7. INDICAÇÃO DO INFANTILISMO NA SEXUALIDADE Os germes de todas as perversões só é demonstrável na criança, mesmo que nela todas as pulsões só possam emergir com intensidade moderada. Vislumbra-se assim a fórmula de que os neuróticos preservaram o estado infantil de sua sexualidade ou foram retransportados para ele. Desse modo, o interesse volta-se para o estudo da vida sexual da criança. – A SEXUALIDADE INFANTIL Faz parte da opinião popular sobre a pulsão sexual que ela está ausente na infância e só desperta no período da vida designado de puberdade. Mas esse não é apenas um erro qualquer, e sim um equívoco de graves conseqüências, pois é o principal culpado de nossa ignorância de hoje sobre as condições básicas da vida sexual. A razão dessa estranha negligência pode ser buscada, em parte, à singular amnésia que, na maioria das pessoas (mas não em todas!), encobre os primeiros anos da infância, até os seis ou oito anos de idade. Não há como falar em nenhum declínio real das impressões infantis, mas sim numa amnésia semelhante à que se observa nos neuróticos em relação às vivências posteriores, e cuja essência consiste num mero impedimento da consciência (recalcamento). A sexualidade dos psiconeuróticos preserva o estado infantil ou é reconduzida a ele. 2.1. O PERÍODO DE LATÊNCIA SEXUAL DA INFÂNCIA E SUAS RUPTURAS Parece certo que o recém-nascido traz consigo germes de moções sexuais que continuam a se desenvolver por algum tempo, mas depois sofrem uma supressão progressiva, a qual, por sua vez, pode ser rompida por avanços regulares do desenvolvimento sexual ou suspensa pelas peculiaridades desse curso oscilante de desenvolvimento. Parece, no entanto, que a vida sexual da criança costuma expressar-se numa forma acessível à observação por volta dos três ou quatro anos de idade. ( As inibições sexuais Durante esse período de latência total ou apenas parcial erigem-se as forças anímicas que, mais tarde, surgirão como entraves no caminho da pulsão sexual e estreitarão seu curso à maneira de diques (o asco, o sentimento de vergonha, as exigências dos ideais estéticos e morais). Nas crianças civilizadas, tem-se a impressão de que a construção desses diques é obra da educação, e certamente a educação tem muito a ver com isso. Na realidade, porém, esse desenvolvimento é organicamente condicionado e fixado pela hereditariedade, podendo produzir-se, no momento oportuno, sem nenhuma ajuda da educação. 2.2. AS MANIFESTAÇÕES DA SEXUALIDADE INFANTIL ( O chuchar O chuchar (sugar com deleite), que já aparece no lactente e pode continuar até a maturidade ou persistir por toda a vida, consiste na repetição rítmica de um contato de sucção com a boca (os lábios), do qual está excluído qualquer propósito de nutrição. Uma parte dos próprios lábios, a língua ou qualquer outro ponto da pele que esteja ao alcance – até mesmo o dedão do pé – são tomados como objeto sobre o qual exerce essa sucção. O sugar com deleite alia-se a uma absorção completa da atenção e leva ao adormecimento, ou mesmo a uma reação motora numa espécie de orgasmo. Não raro, combina-se com a fricção de alguma parte sensível do corpo, como os seios ou a genitália externa. Por esse caminho, muitas crianças passam do chuchar para a masturbação. Na meninice, o chuchar é freqüentemente equiparado aos outros “maus costumes” sexuais da criança baseado na confusão que numerosos pediatras e neurologistas fazem entre “sexual “ e “genital”. ( Auto-erotismo No auto-erotismo a pulsão não está dirigida para outra pessoa e sim no próprio corpo, é auto-erótica. O ato da criança que chucha é determinado pela busca de um prazer já vivenciado e agora relembrado. A primeira e mais vital das atividades da criança – mamar no seio materno (ou em seus substitutos) – há de tê-la familiarizado com esse prazer. Os lábios da criança comportam-se como uma zona erógena, e a estimulação pelo fluxo cálido de leite sem dúvida a origem da sensação prazerosa. A atividade sexual apóia-se primeiramente numa faz funções que servem à preservação da vida, e só depois torna-se independente delas. Quem já viu uma criança saciada recuar do peito e cair no sono, com as faces coradas e um sorriso beatífico, há de dizer a si mesmo que essa imagem persiste também como norma da expressão da satisfação sexual em épocas posteriores da vida. A criança não se serve de um objeto externo para sugar, mas prefere uma parte de sua própria pele. A inferioridade dessa região a levará, mais tarde, a buscar em outra pessoa a parte correspondente, os lábios. Nem todas as crianças praticam esse chuchar. É de supor que cheguem a fazê-lo aquelas em quem a significação erógena da zona labial for constitucionalmente reforçada. Persistindo essa significação, tais crianças, uma vez adultas, serão ávidas apreciadoras do beijo, tenderão a beijos perversos ou, se forem homens, terão um poderoso motivo para beber e fumar. Caso sobrevenha o recalcamento, porém, sentirão nojo da comida e produzirão vômitos histéricos. No chuchar ou sugar com deleite pode-se observar três características essenciais de uma manifestação sexual infantil. Esta nasce apoiando-se numa das funções somáticas vitais, ainda não conhece nenhum objeto sexual, sendo auto-erótica, e seu alvo sexual acha-se sob o domínio de uma zona erógena. O ALVO SEXUAL DA SEXUALIDADE INFANTIL Do exemplo do chuchar pode-se deduzir várias coisas para a caracterização do que é uma zona erógena. Qualquer outro ponto da pele ou da mucosa pode tornar a seu encargo as funções de uma zona erógena. A qualidade do estímulo, mais do que a natureza das partes do corpo, é que tem a ver com a produção da sensação prazerosa. O alvo sexual da pulsão infantil consiste em provocar a satisfação mediante a estimulação apropriada da zona erógena que de algum modo foi escolhida. O estado de necessidade de repetir uma satisfação transparece de duas maneiras: por um sentimento peculiar de tensão, que tem, antes, o caráter de desprazer, e por uma sensação de prurido ou estimulação centralmente condicionada e projetada para a zona erógena periférica. AS MANIFESTAÇÕES SEXUAIS MASTURBATÓRIAS A satisfação da zona labial que consistia no sugar, agora passa a ser substituição por outras ações musculares conforme a posição e a natureza das outras zonas. ( Atividade da zona anal Os distúrbios intestinais tão freqüentes na infância providenciaram para que não faltem a essa zona excitações intensas. Os catarros intestinais na mais tenra idade deixam a criança “nervosa”, como se costuma dizer; no adoecimento neurótico posterior, eles têm uma influência determinante na manifestação somática da neurose. As crianças que tiram proveito da estimulabilidade erógena da zona anal denunciam-se por reterem as fezes até que sua acumulação provoca violentas contrações musculares e, na passagem pelo ânus, pode exercer uma estimulação intensa na mucosa. Com isso, hão de produzir-se sensações de volúpia ao lado das sensações dolorosas. Um dos melhores presságios de excentricidade e nervosismo posteriores é a recusa obstinada do bebê a esvaziar o intestino ao ser posto no troninho, ou seja, quando isso é desejado pela pessoas que cuida dele, ficando essa função reservada para quando aprouver a ele próprio. Naturalmente, não é que lhe interesse sujar a cama; ele está apenas providenciando para que não lhe escape o dividendo de prazer que vem junto com a defecação. Mias uma vez, os educadores têm razão ao chamarem de perversas as crianças que “retardam” essas funções. O conteúdo intestinal é obviamente tratado como parte de seu próprio corpo, representando o “presente”: ao desfazer-se dele, a criaturinha pode exprimir sua docilidade perante o meio que a cerca, e ao recusá-lo, sua obstinação. A retenção fecal, a princípio intencionalmente praticada para tirar proveito da estimulação como que masturbatória da zona anal, ou para ser empregada na relação com as pessoas que cuidam da criança, é, aliás, uma das raízes da constipação tão freqüente nos neuropatas. A história da primeira proibição com que a criança esbarra, a proibição de extrair prazer da atividade anal e de seus produtos, é decisiva para todo o seu desenvolvimento. É nessa ocasião que a criaturinha deve pressentir pela primeira vez um meio hostil e sua moções pulsionais, aprender a separar seu próprio ser desse desconhecido e então efetuar o primeiro “recalcamento” de suas possibilidades de prazer. ( Atividade da zona genital Nas crianças tanto do sexo masculino quanto feminino, está ligada à micção (glande, clitóris) e, mas primeiras acha-se dentro de uma bolsa de mucosa, de modo que não pode faltar-lhe a estimulação por secreções que aticem precocemente a excitação sexual. Por sua posição anatômica, pelas secreções em que estão banhadas, pela lavagem e fricção advindas dos cuidados com o corpo e por certas excitações acidentais (como as migrações de vermes intestinais nas meninas), é inevitável que a sensação prazerosa que essas partes do corpo são capazes de produzir se faça notar à criança já na fase de amamentação, despertando uma necessidade de repetí-la. É através do onanismo do lactente, do qual praticamente nenhum indivíduo escapa, que se estabelece a futura primazia dessa zona erógena na atividade sexual. A ação que elimina o estímulo e provoca a satisfação consiste num contato por fricção manual ou numa pressão. A bem da clareza, convém indicar que é preciso distinguir três fases da masturbação infantil. A primeira é própria do período de lactância, a segunda pertence à breve florescência da atividade sexual por volta do quarto ano de vida, e somente a terceira corresponde ao onanismo da puberdade, amiúde o único a ser levado em conta. ( O retorno da masturbação da lactância A excitação sexual do período de lactância retorna nos anos infantis já indicados, seja como um estímulo de prurido centralmente condicionado, que exorta a uma satisfação masturbatória, seja como um processo da natureza de uma polução. Para o reaparecimento da atividade sexual são decisivas as causas internas e as contingências internas, ambas as quais podem ser inferidas, nos casos de doença neurótica, a partir da forma dos sintomas, sendo descobertas com certeza através da investigação psicanalítica. As contingências fortuitas externas ganham nesse período uma importância grande e duradoura. Em primeiro plano situa-se a influência da sedução, que trata a criança prematuramente como um objeto sexual e que, em circunstâncias que causam forte impressão, ensina-a a conhecer a satisfação das zonas genitais – uma satisfação que ela fica quase sempre obrigada a renovar pelo onanismo. Tal influência pode provir de adultos ou de outras crianças. É evidente que a sedução não é necessária para despertar a vida sexual da criança, podendo esse despertar surgir também, espontaneamente, de causas internas. ( Pulsões parciais A criança pequena é, antes de mais nada, desprovida de vergonha, e em certos períodos de seus primeiros anos mostra uma satisfação inequívoca no desnudamento do corpo, com ênfase especial nas partes sexuais. A contrapartida dessa inclinação tida como perversa – a curiosidade de ver a genitália de outras pessoas – provavelmente só se torna manifesta um pouco mais tarde na infância. As crianças pequenas cuja atenção foi atraída, em algum momento, para sua própria genitália – geralmente pela masturbação – costumam dar o passo adicional sem ajuda externa e desenvolver um vivo interesse pelos genitais de seus coleguinhas. Tais crianças tornam-se voyeurs, zelosos expectadores da micção e da defecação de outrem. Uma vez sobrevindo o recalcamento dessas inclinações, a curiosidade de ver a genitália alheia (seja do mesmo sexo ou do sexo oposto) persiste como uma pressão torturante, que em muitos casos de neurose fornece, posteriormente, a mais poderosa força impulsora para a formação do sintoma. As crianças que se distinguem por uma crueldade peculiar para com os animais e os companheiros despertam, em geral justificadamente, a suspeita de uma atividade sexual intensa e precoce advinda das zonas erógenas. A estimulação dolorosa da pele das nádegas tem sido reconhecida por todos os educadores como uma das raízes erógenas da pulsão passiva de crueldade (masoquismo). 2.5. A INVESTIGAÇÃO SEXUAL INFANTIL ( A pulsão do saber Essa pulsão não pode ser computada entre os componentes pulsionais elementares, nem exclusivamente subordinada à sexualidade. Sua atividade corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominação e, de outro, trabalha com a energia escopofílica. A pulsão do saber é atraída pelos problemas sexuais. ( Complexo de castração e inveja do pênis A suposição de uma genitália idêntica (masculina) em todos os seres humanos é a primeira das notáveis e momentáveis teorias sexuais infantis. A garotinha não incorre em semelhantes recusas ao avistar os genitais do menino, com sua conformação diferente. Está pronta a reconhecê-lo de imediato e é tomada pela inveja do pênis, que culmina no desejo de ser também um menino, tão importante em suas conseqüências. ( A concepção sádica da relação sexual Quando as crianças em tão tenra idade assistem à relação sexual entre adultos, o que é ensejado pela convicção dos mais velhos de que a criança pequena não pode entender nada de sexual, elas não podem deixar de conceber o ato sexual como uma espécie de sevícia ou subjugação, ou seja, de encará-lo num sentido sádico. Isso contribui em muito a predisposição a um deslocamento sádico posterior do alvo sexual. ( O fracasso típico da investigação sexual infantil Dois elementos permanecem desconhecidos na investigação sexual infantil, a saber, o papel do sêmen fecundante e a existência do orifício sexual feminino – os mesmos pontos, aliás, em que a organização sexual infantil ainda está atrasada. 2.6. AS FASES DE DESENVOLVIMENTO DA ORGANIZAÇÃO SEXUAL (Organizações pré-genitais Essas fases da organização sexual são normalmente atravessadas sem dificuldade, revelando-se apenas por alguns indícios. Somente nos casos patológicos é que são ativadas e se tornam passíveis de conhecimento pela observação grosseira. Chama-se pré-genitais às organizações da vida sexual em que as zonas genitais ainda não assumiram seu papel preponderante. A primeira dessas organizações sexuais é a oral ou canibalesca. Nela, a atividade sexual ainda não se separou da nutrição. O objeto de uma atividade é também o da outra, e o alvo sexual consiste na incorporação do objeto – modelo do que mais tarde irá desempenhar, sob a forma da identificação, um papel psíquico tão importante. Uma segunda fase pré-genital é da organização sádico-anal. Nela, a divisão em opostos não podem ser chamados de masculino e feminino, e sim ativo e passivo. Nessa fase, portanto, já é possível demonstrar a polaridade sexual e o objeto alheio, faltando ainda a organização e a subordinação à função reprodutora. ( Ambivalência Os pares de opostos de pulsões estão desenvolvidos de maneira aproximadamente igual, num estado de coisas descrito pela oportuna designação de “ambivalência” introduzida por Bleuler. Já na infância se efetua uma escolha objetal, ou seja, o conjunto das aspirações sexuais orienta-se para uma única pessoa, na qual elas pretendem alcançar seus objetivos. ( Os dois tempos da escolha objetal Pode-se considerar como ocorrência típica que a escolha de objeto se efetue em dois tempos. O primeiro deles começa entre os dois e os cinco anos e retrocede ou é detida pelo período de latência, caracteriza-se pela natureza infantil de seus alvos sexuais. O segundo sobrevém com a puberdade e determina a configuração definitiva da vida sexual. Os resultados da escolha objetal infantil prolongam-se pelas épocas posteriores; ou se conservam como tal ou passam por uma renovação na época da puberdade. Contudo, revelam-se inutilizáveis, em conseqüência do recalcamento que se desenvolve entre as duas fases. A escolha de objeto da época da puberdade tem de renunciar aos objetos infantis e recomeçar como uma corrente sensual. A não-confluência dessas duas correntes tem como conseqüência, muitas vezes, a impossibilidade de alcançar um dos ideais da vida sexual – a configuração de todos os desejos num único objeto. 2.7. AS FONTES DA SEXUALIDADE INFANTIL No esforço de rastrear as origens da pulsão sexual, descobriu-se até agora que a excitação sexual nasce como a reprodução de uma satisfação vivenciadas em relação a outros processos orgânicos, pela estimulação periférica apropriada das zonas erógenas, e como expressão de algumas “pulsões” que ainda não nos são inteiramente compreensíveis em sua origem, como a pulsão de ver e a pulsão para a crueldade. A observação de crianças tem a desvantagem de trabalhar com dados facilmente passíveis de mal-entendidos, e a psicanálise é dificultada pelo fato de só poder chegar a seus dados e conclusões depois de longos rodeios; em cooperação, entretanto, os dois métodos obtêm um grau satisfatório de certeza de conhecimentos. ( Excitações mecânicas A existência dessas sensações prazerosas, produzidas por certos tipos de agitação mecânica do corpo, é confirmada pelo fato de as crianças gostarem tanto das brincadeiras de movimento passivo, como serem balançadas e jogadas para o alto, e de pedirem incessantemente que sejam repetidas. Sabe-se que é costumeiro usar o recurso de embalar as crianças inquietas para fazê-las adormecer. Sobrevindo então o recalcamento, que converte tantas das predileções infantis em seu oposto essas mesmas pessoas, quando adolescentes ou adultas, reagirão com náuseas aos balanços e sacolejos. A conjugação do susto com a agitação mecânica produz a grave neurose traumática histeriforme. ( Atividade muscular Uma série de pessoas informa ter vivenciado os primeiros sinais de excitação em sua genitália no curso de brigas ou lutas com seus companheiros de brincadeiras, situação na qual, além do esforço muscular generalizado, há ainda um estreito contato com a pele do oponente. A tendência a travar lutas musculares com determinada pessoa, bem como, em épocas posteriores, a inclinação às disputas verbais são um bom sinal de que a escolha de objeto recaiu sobre essa pessoa. A análise dos casos de abasia neurótica e agorafobia elimina qualquer dúvida sobre a natureza sexual do prazer do movimento. A educação moderna, como é sabido, serve-se dos esportes em larga escala para desviar os jovens da atividade sexual; seria mais correto dizer que, nesses jovens, ela substitui o gozo sexual pelo prazer do movimento e força a atividade sexual a recuar para um de seus componentes auto-eróticos. ( Processos afetivos Todos os processos afetivos mais intensos, inclusive as excitações assustadoras, propagam-se para a sexualidade. ( Trabalho intelectual Por fim, é inequívoco que a concentração da atenção numa tarefa intelectual, bem como o esforço intelectual em geral, têm por conseqüência produzir em muitas pessoas, tanto jovens quanto adultas, uma excitação sexual concomitante. Entretanto, não é possível clareza nessa proposição por dois fatores: a novidade de todo o método de abordagem e a circunstância de a natureza da excitação sexual ser-nos inteiramente desconhecida. – AS TRANSFORMAÇÕES DA PUBERDADE A puberdade traz a configuração normal definitiva da vida sexual. Antes, o alvo sexual eram as zonas erógenas distintas, que independentemente umas das outras, buscavam prazer. O novo alvo sexual consiste agora na descarga dos produtos sexuais. A obtenção do prazer continua familiar, porém a pulsão sexual agora está a serviço da função reprodutora. Como todas as ocasiões de mudanças para mecanismos mais complexos, há a possibilidade de perturbações patológicas que devem ser consideradas como inibições do desenvolvimento. 3.1. O PRIMADO DAS ZONAS GENITAIS E O PRÉ-PRAZER Destaca-se na puberdade o crescimento da genitália externa e desenvolvimento dos genitais internos, deixando este aparelho complexo, pronto para ser utilizado. Ele será acionado por estímulos que podem vir por três caminhos: mundo externo, pela excitação das zonas erógenas; do interior, por vias ainda desconhecidas ou pela vida anímica através de um repertório de impressões externas e um receptor de excitações internas. Por quaisquer destes caminhos chega-se à excitação sexual. ( Tensão sexual O caráter de tensão da excitação sexual traz o paradoxo de que o sentimento de tensão tem de trazer em si o caráter do desprazer. Este sentimento altera a situação psíquica. O olho é um ponto afastado do objeto sexual que pode ser estimulado pelos atrativos. Esta estimulação pode ligar-se à de outra zona erógena e mesmo assim converter-se em desprazer se não for permitido o acesso ao prazer ulterior. ( O mecanismo do pré-prazer As zonas erógenas têm a função de possibilitar, pelo pré-prazer delas extraído, a produção do prazer maior da satisfação. Há uma diferenciação no prazer advindo da excitação das zonas erógenas denominado pré-prazer e já produzido em menor escala pela pulsão sexual infantil e o prazer pela expulsão das substâncias sexuais ou o prazer final. ( Os perigos do pré-prazer O pré-prazer representa perigo para o desenvolvimento normal quando em algum ponto é grande demais ou quando deixa faltar pulsional para prosseguimento do processo sexual. A causa é esclarecida quando a zona erógena ou pulsão parcial correspondente tenham contribuído de forma exagerada para obtenção do prazer e somando-se à fixação que leva a resistência da incorporação deste pré-prazer a um novo contexto, levando a mecanismo de perversões. A forma de evitar é quando desde a segunda metade da infância, as zonas genitais já se convertem em sede das sensações de excitação, assemelhando-se à vida adulta. Confirma-se que os desvios da vida sexual e a própria normalidade da mesma, são determinadas pelas manifestações infantis da sexualidade. 3.2. O PROBLEMA DA EXCITAÇÃO SEXUAL ( O papel das substâncias sexuais Relacionando a tensão sexual com os produtos sexuais tem-se fatos como: ‘O fim da excitação sexual somente com a descarga das substâncias e quando numa vida de castidade há a polução noturna prazerosa. Há ainda o fato de que se a reserva de sêmen se esgota, impossibilita o ato sexual e certa estimulação das zonas erógenas. Levanta-se a hipótese de que a acumulação das substâncias sexuais cria e mantém a tensão sexual pela pressão nas paredes de seus receptáculos. Rebate-se a hipótese com análise de casos como as crianças, mulheres e eunucos, nos quais não há esta acumulação e essa pulsão. Adverte-se que não se deve afirmar que esta acumulação realiza o que não lhe é possível. ( Apreciação dos órgãos sexuais internos Observações mostram que a excitação sexual pode consideravelmente independer da produção das substâncias sexuais. Embora cause limitações, a castração não acaba com a libido, mesmo na perda das glândulas sexuais masculina. A castração antes da puberdade pode suprimir caracteres sexuais e inibir outra fatores relacionados. ( Teoria química A extirpação de gônadas em experiências elucidaram um pouco a origem da excitação sexual, possibilitou transformações de animais machos em fêmeas e vice-versa, embora influência do sexo não seja atribuída só as gônadas, mas sim ao seu tecido intersticial este destacando-se como “glândula da puberdade”. Aponta-se a possibilidade desta não ser o único responsável pela excitação e caracteres sexuais, ajustando-se o conhecimento da atração da tireóide na sexualidade. 3.3. A TEORIA DA LIBIDO Sendo a libido uma força quantitativamente variável capaz de medir transformações na excitação sexual é separada de outras formas de energia psíquica, chega-se à representação da libido a cujo substituto psíquico chama-se libido do ego e cuja movimentação permite explicar fenômenos psicossexuais quando esta libido do ego converte-se em libido do objeto. 3.4. DIFERENCIAÇÃO ENTRE HOMEM E MULHER Apesar de na infância já se reconhecerem disposições masculinas e femininas, só na puberdade se estabelece separação nítida. Na mulheres a tendência ao recalcamento parece maior porém, a atividade auto-erótica das zonas erógenas é idêntica. Sobre esta atividade teoriza-se que a sexualidade feminina tem caráter masculino, alegando que a libido é normativamente de natureza masculina. ( Zonas dominantes no homem e na mulher Nas meninas a zona erógena dominante é o clitóris semelhante à glande nos meninos. A masturbação feminina está relacionada aso clitóris sendo outro tipo excepcional. A excitação neste órgãos facultam à menina formular juízo acertado sobre as manifestações sexuais nos meninos. A puberdade, no menino traz avanço na libido e na menina traz recalcamento que afetam a sexualidade do clitóris, isto estimula a libido masculina, supervalorizando sua sexualidade que aparece mais diante da mulher que renega a sua sexualidade. Ao transformar a excitabilidade erógena do clitóris para a vagina, há uma mudança da zona dominante, enquanto o homem conserva a dele desde a infância. Nesta mudança residem determinantes da proposição feminina à neurose. 3.5 O ENCONTRO DO OBJETO Na puberdade, o homem tem como novo alvo sexual a penetração numa cavidade do corpo que excite sua zona genital. Na infância o objeto era o seio materno, pela nutrição. O encontro do objeto é só um reencontro da fase de amamentação. No período de latência aprende-se a amar quem o ama fonte de excitação para a criança, o trato da pessoa que a assiste. A mãe contempla a criança com derivações de sua vida sexual: carícias, beijos, embalos, como substituto do objeto sexual legítimo. Considera isto como amor “puro” assexual, preocupada em evitar os genitais, embora a pulsão não se despeite apenas nesta zona. Compreendo sua importância para a vida anímica como toda, a mãe se pouparia de auto-recriminações. ( Angústia infantil É originada na falta que sente da pessoas amada, angustiando-se ante estranhos. Só tendem à angústia, crianças com pulsão sexual desmedida ou prematuramente desenvolvida em função do excesso de mimos. ( A barreira do incesto A ternura dos pais cumpre sua tarefa de orientação para a maturidade ao evitar o despertar prematuro da pulsão – antes que ocorra nas condições somáticas da puberdade. O respeito à barreira do incesto, exigência cultural e social que defende a família, faz os indivíduos, sobretudo adolescentes, afrouxarem laços familiares para o amadurecimento. Há pessoas que não superam a autoridade dos pais, não retirando deles sua ternura, persistindo no amor infantil. Tornam-se esposas frias e sexualmente anestesiadas. As perturbações mais profundas do desenvolvimento psicossexual destaca importância da escolha objetal incestuosos. Nos psiconeuróticos esta atividade permanece no inconsciente pelo repúdio à sexualidade. Moças com apego exagerado à ternura, fugidias da realidade com inclinação ao infantil, são ditas pela psicanálise com “enamoradas” pelos parentes consangüíneos. ( Repercussões da escolha objetal infantil Mesmo evitando a fixação incestuosa da libido, sofre-se influência, pois com freqüência o primeiro enamoramento do rapaz é por uma mulher madura e da moça por um homem mais velho e com autoridade. Vendo-se a importância da relação pais-filhos que perturbações nestas trarão conseqüências para a maturidade, inclusive na escolha do objeto que tem por função implícita não desencontrar o sexo oposto e isto pode ser evitado com a atração que os caracteres sexuais opostos exercem. 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